O mercado imobiliário brasileiro encerrou o 1º trimestre de 2026 consolidando uma trajetória de forte resiliência. Mesmo diante de desafios macroeconômicos e de um cenário de juros estruturalmente complexos, os indicadores setoriais apontam que a busca pela casa própria e o ritmo de vendas continuam em patamares históricos.
Para compreender as transformações desse mercado, analisamos os dados mais recentes divulgados pelas principais entidades do setor.
Os grandes números do Mercado Imobiliário no 1º trimestre de 2026
Tradicionalmente, o primeiro trimestre do ano é marcado por uma desaceleração sazonal devido às férias e às festividades de Carnaval. No entanto, o acumulado dos últimos 12 meses atingiu o maior ponto da série histórica do país, registrando a marca de 466 mil unidades lançadas.
A distribuição dessas unidades pelo território nacional reflete o peso econômico de cada região:
- Sudeste: 250 mil unidades
- Sul: 95 mil unidades
- Nordeste: 80 mil unidades
- Centro-Oeste: 27 mil unidades
- Norte: 13 mil unidades
Em termos de vendas acumuladas, o recorde também foi quebrado, totalizando 438.012 unidades comercializadas nos últimos 12 meses. No primeiro trimestre isolado, o Valor Geral de Vendas (VGV) liquidado foi de R$ 65 bilhões, demonstrando estabilidade frente ao mesmo período do ano anterior.
A velocidade de escoamento do estoque (oferta final) encontra-se em um patamar bastante saudável: são 350 mil unidades remanescentes, o que representa um tempo de giro de 9,6 meses, um estoque considerado baixo, já que o ciclo médio de uma obra varia entre 20 e 30 meses.
A força do Minha Casa, Minha Vida (MCMV)
Já falamos nas redes da Uni sobre um movimento de grandes incorporadoras de alto padrão que estão se estruturando para entrar no mercado MCMV. E não é pra menos!
O programa Minha Casa, Minha Vida consolidou-se como o grande pilar do mercado imobiliário no 1º trimestre. Se considerarmos apenas as 221 principais cidades pesquisadas, o programa representa metade do mercado; contudo, em uma projeção nacional, o MCMV responde por 65% a 70% de toda a atividade imobiliária do Brasil.
No trimestre, foram vendidas 54.510 unidades econômicas. A relevância do programa é nítida nas assimetrias regionais: enquanto no Norte o programa representa 83% dos lançamentos, no Sul ele responde por apenas 18%, fruto de severas restrições urbanísticas locais e escassez de terrenos adequados à faixa popular nas capitais sulistas.
O impacto da redução da Jornada 6×1
Um dos debates mais intensos e que traz grandes preocupações para o setor é a proposta de alteração da jornada de trabalho 6×1. Ao cruzarmos os dados de produtividade e custos, o cenário revela um gargalo operacional preocupante para a construção civil.
A construção civil é um setor altamente intensivo em mão de obra e que já vem enfrentando forte pressão nos custos de contratação. Atualmente, o país possui entre 800 mil e 1 milhão de unidades em produção, a grande maioria já vendida sob contratos rígidos de preço e prazo de entrega determinado.
Estudos da CBIC apontam que a redução da jornada elevaria em 10% o custo total de uma casa do Minha Casa, Minha Vida. O grande risco social reside no fato de que este encarecimento incidirá prioritariamente sobre a população mais carente, impactando não apenas a habitação popular, mas também a construção de infraestruturas essenciais, como leitos de hospitais públicos e creches.
Diferente de outras indústrias, a construção civil depende da execução física e de mão de obra qualificada no canteiro de obras. Sem um prazo de transição que permita ao setor injetar tecnologia e obter ganho de produtividade real, o estudo calcula que seriam necessários cerca de 288 mil trabalhadores adicionais apenas para suprir a redução da carga horária e entregar as obras sem atrasos.
Uma mudança abrupta resultaria não apenas em cronogramas estourados e reajustes nos preços finais repassados ao consumidor. Há também um alerta para o risco de precarização: como parte do salário no setor é atrelado à produtividade (por tarefa), muitos profissionais sofreriam perdas na renda e acabariam precisando recorrer a “bicos” em seus dias de descanso para fechar as contas do mês.
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Expectativas para o setor no restante do ano
As projeções para o restante do ano de 2026 dividem-se entre otimismo comercial e cautela operacional. A demanda por moradia permanece estruturalmente aquecida, impulsionada pelos índices favoráveis de emprego e pela recente elevação do teto de financiamento da Faixa 4 do MCMV para R$ 600 mil, atraindo a classe média para o programa.
Contudo, o setor precisará monitorar de perto a pressão nos custos de construção. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), acumulado em 6%, ameaça subir para 9% até o fim do ano, puxado pela base de insumos como cimento, concreto e PVC.
A expectativa é que o segmento econômico continue liderando o volume de vendas, enquanto o mercado de médio e alto padrão adote uma postura mais seletiva e focada em nichos específicos, aguardando definições mais claras sobre as regras de transição da Reforma Tributária para garantir a viabilidade de seus lançamentos de longo prazo.
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Fonte dos Dados: > Relatório de Indicadores Nacionais do Mercado Imobiliário do 1º Trimestre de 2026, elaborado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) em parceria com a Brain Inteligência Estratégica e curadoria do Secovi-SP.